O título do post pode parecer exagerado, mas não é. A São Silvestre foi ferida de morte.
A corrida mais tradicional de São Paulo, quiçá do Brasil, tem quase 90 anos. É isso mesmo, quase 9 décadas de existência. Qualquer um pensaria que com esse tempo todo ela mereceria um pouco mais de respeito de seus organizadores. Infelizmente, como todos sabemos, o Brasil é um país que não respeita os mais velhos.
Como eu escrevi
aqui, a São Silvestre de 2010 foi a primeira que eu corri - e pelo jeito será a única - mas, a corrida em si, faz parte da minha vida desde que nasci. O sonho de virar o ano correndo foi por água abaixo quando a corrida passou de noturna pro período da tarde. Agora, alteraram o trajeto.
Qual o motivo da alteração do trajeto? É que a chegada na Avenida Paulista atrapalha o início da concentração pro show da virada, com queima de fogos. Coincidentemente os eventos tem o mesmo patrocinador: A Rede Globo.
Ocorre que a São Silvestre tem quase noventa anos, e a queima de fogos na Av. Paulista tem pouco mais de 20. Do ponto de vista de tradição, a São Silvestre representa muito mais do que a queima de fogos da Av. Paulista. Do ponto de vista de possibilidade de se fazer a queima de fogos há outros lugares mais apropriados tanto à realização do show como da queima de fogos. Por que não realiza-los no Vale do Anhangabaú, ou no Sambódromo? Os dois lugares são de fácil acesso, e, principalmente, não tem residências, nem 9 (sim nove!) hospitais em seu entorno, que sofrem com o barulho dos fogos e da música alta durante a madrugada.
Mas, ao invés de retirar a jovem "tradição" da Paulista preferem tirar a antiga. Como sempre no Brasil desrespeita-se o mais velho, em prol do mais novo. Afinal o que é uma tradição de 90 anos não é mesmo?
Se, e isso é uma hipótese remota, a queima de fogos fosse para o vale do Anhangabaú, quem sabe até, a São Silvestre poderia voltar aos seus tempos de glória e ser disputada à noite, com atletas cruzando o tapete de chegada à meia-noite, dando enfim uma saudação digna ao novo ano.
Entre a São Silvestre, tão original, rica e paulistana, e a queima de fogos tão comum, repetitiva e insossa, a Avenida Paulista merece o vinho raro de sua incomparável corrida e não o refrigerante barato da queima de fogos.
Me lembrei agora de um grito de guerra comum no vale do Anhangabaú durante os showmícios pelas eleições diretas nos anos 80:
O POVO NÃO É BOBO, FORA REDE GLOBO!
Talvez esteja na hora de retomá-lo.