segunda-feira, 28 de junho de 2010

Admiração ou inveja, diferenciar é a questão

“Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Êxodo – 20, 17)

O versículo acima fala sobre um sentimento que muitos de nós negam possuir: a inveja. Ela se manifesta de diversas formas, e, vou escrever sobre uma que venho presenciando desde que nasci, que sempre me incomodou, porém só agora consegui identificar que era inveja o que me causava incômodo.


Conheço uma pessoa que nunca compra as próprias roupas, sempre procura usar roupas de outras pessoas, seja emprestando-as, seja recebendo da pessoa a roupa já usada.

Durante anos essa pessoa não teve condições financeiras de comprar roupas boas, pois era casada com um homem que ganhava pouco, tinha filhos pequenos e renda familiar pra lá de apertada. Por isso sempre ganhou roupas de suas irmãs, amigas, primas e até sobrinhas de idade próxima. Acostumou-se a pedir roupas emprestadas sempre que tinha festas, reuniões e eventos especiais para ir.

Hoje essa pessoa está numa situação bem diferente: embora não seja rica tem boa condição financeira, seus filhos são adultos e casados, ela não tem gastos excessivos com nada, e, mesmo assim não compra roupas para seu uso. Na verdade no dia a dia usa roupas velhas, quando há um evento especial pede a suas amigas e à sua irmã roupas emprestadas. Mesmo quando compra roupas para os eventos acaba não usando, pois sempre coloca algum defeito.

Recentemente essa pessoa pediu-me uma peça de roupa emprestada, emprestei na boa, embora fosse uma roupa que uso bastante. Alguns dias depois minha mãe comentou algo do tipo: o estranho é que ela tem um casaco tão bonito em casa e não usa...

Como eu não sabia que ela tinha o tal casaco, pois nunca a vi usando, me pus a pensar no motivo para pedir o meu emprestado.

A conclusão a que cheguei é de que ela não usa as próprias roupas porque não tem graça, o bom para ela é usar as coisas que outros já usaram, coisas que outros acharam bonitas e que ela achou bonita nos outros. Aquilo que ela escolheu, que ela gostou, comprou com seu próprio dinheiro para ela não tem valor, o valor vem do fato de ter sido de outros.

Há admiração? Sem dúvida alguma, mas, também há inveja. Inveja inconsciente, um tipo de inveja que muito se aproxima da admiração, e de certo modo com ela se confunde. Há também auto-estima baixíssima, de alguém que sempre se achou inferior, que sempre achou que não sabia escolher nada e, portanto, que nada que ela própria escolhe é bom ou bonito.

Paralelo a isso há alguém que já passou por muitas dificuldades financeiras, que já teve de economizar muito, que já teve de fazer roupas, objetos pessoais e tudo mais durar o máximo possível. Pra essa pessoa é inadmissível não usar algo até o fim, mesmo que no fim o objeto esteja horrível, ou seja algo sem conserto.

De outro lado essa pessoa não sabe receber presentes. Todos, sempre, são inadequados. Tenho a sensação de que essa pessoa não consegue imaginar que alguém consiga gostar dela o bastante para lhe dar um presente, ou para lhe dar algo especial. Desse modo toda vez que recebe um presente ela reclama, diz que não gosta, magoa aos outros e a si mesma. Metade das brigas que teve com o ex-marido foram causadas por isso, a outra metade por ciúme.

O motivo dessa narrativa, sobre uma pessoa que me é próxima é tentar entender como a inveja, mesmo que inconsciente, pode afetar a vida de uma pessoa, e daqueles que lhe são próximos.

Mesmo indiretamente fui afetada pela história. Vivenciei por tanto tempo esse tipo de admiração invejosa próxima a mim que reajo de maneira negativa sempre que sou elogiada ou quando meus objetos são elogiados. Sempre que elogiam uma roupa, um adereço, uma coisa qualquer que eu tenha reajo de maneira negativa. Até a pouco tempo atrás não sabia disso – na verdade foi na terapia que notei isso, ou melhor, que a terapeuta chamou minha atenção para isso – mas, nunca havia conseguido identificar a causa desse comportamento. Agora consegui. Provavelmente será mais fácil mudar minha reação a elogios agora que sei por que reajo mal a eles. Nem todos trazem a inveja embutida na admiração. Saber disso é um alívio.

O que gostaria muito de saber é como ajudar a essa pessoa de quem falo a superar esse sentimento arraigado de inveja e baixa auto-estima. Mas, isso é assunto pra outra hora.