quinta-feira, 19 de março de 2009

Cinema no Shopping


Há alguns anos atrás, ou melhor, há algumas décadas atrás, se eu escrevesse a frase que dá título a este post não precisava colocar o nome do shopping, pois em São Paulo só havia um: o Iguatemi.

Inaugurado um ou dois anos antes de eu nascer foi o primeiro shopping de São Paulo e acho até que do Brasil. Durante muitos anos imperou só. O comércio de rua era forte, ainda é, o shopping era mais um local para se passear do que para comprar. As lojas do Iguatemi eram quase as mesmas que havia nas ruas, ele não tinha praça de alimentação, havia 3 cinemas, alguns restaurantes e lanchonetes bons, e alguns difereciais: a loja de discos Hi-Fi, as rampas na entrada, a Rinaldi Flores (no vão entre as rampas), o café expresso do Almanara, a feirinha de antiguidades no estacionamento aos domingos. Durante toda a minha adolescencia eu frequentei o Iguatemi. É próximo de casa, era pequeno, gostoso e acolhedor.

Ontem, depois de muito tempo, eu voltei lá. O shopping cresceu, ganhou novas lojas, ficou extremamente caro, pouco acolhdor e de uma ostentação que o torna meio hostil aos pobres mortais como eu.

As rampas ainda estão lá, sem a loja de flores da Rinaldi, substituida por um "jardim" que dá acesso a um banco. A Hi-Fi fechou há muitos anos, desde que o vinil foi substituído por cds, o café do Almanara está no 3º andar - embora o Almanara continue no canto do 1º -, a City Coisas fechou, tem uma loja da L'Occitane no lugar. Os diferenciais agora são a Louis Vuitton (onde antes era a Casa Moyses), a loja da Cartier no térreo, a da Bacarat (de cristais) e outras lojas de griffe muito caras.

Os cinemas que antes ficavam no 3º andar estão num "anexo" (é mais chique que puxadinho) com acesso por 3 escadas rolantes, bem acima do último andar do shopping, são 10 salas ao invés de 3 e muito caras (R$ 16,00 numa quarta feira é absurdo).

O shopping e o cinema estavam vazios. Apenas algumas peruas fazendo compras, e alguns executivos tomando lanche ou pegando um cinema depois do expediente.

Pra matar a saudade do velho Iguatemi comi um Beiruth com milk shake de chocolate no Frevo. Pelo menos isso ainda não mudou. Ah! o relógio de água continua no vão entre as rampas. Obrigado Senhor!

******


O filme que fui assistir ontem foi "Milk - A voz da Igualdade"
Uma cinebiografia de Harvey Milk (1930-1978), político norte-americano que assumiu sua homossexualidade publicamente nos anos 70, interpretado por Sean Penn, sendo o primeiro homossexual assumido a ser eleito a um cargo público nos Estados Unidos. No ano seguinte, Milk foi assassinado por um adversário de carreira política desconsolado com a perda nas urnas.

Estrelando: Sean Penn, Josh Brolin, Emile Hirsch, James Franco, Diego Luna, Brandon Boyce, Kelvin Yu, Lucas Grabeel, Alison Pill, Victor Garber, Denis O'Hare, Howard Rosenman, Stephen Spinella, Ted Jan Roberts, Tom Ammiano
Dirigido por: Gus Van Sant
Produzido por: Bruce Cohen, Dan Jinks, Michael London

Esse filme foi uma decepção. Desde que estreou que quero assisti-lo e ontem me decepcionei. Há algum tempo atrás assistindo o programa do Ronnie Von, o rapaz que comenta sobre cinema disse que Milk era muito bom mas asséptico. Fiquei intrigada. Ontem eu entendi.

O filme é politicamente correto demais. A história, real, se passa em São Francisco, EUA, nos anos 70, num bairro de homossexuais. Entretanto, não há negros, não há fumantes, só o namorado do cara fuma um baseadinho, não há mulheres (nem héteros nem lésbicas), e muito pouca bebida. E quase não se falam palavrões. Anos 70 do século passado com mentalidade de anos 00 do século XXI. Mais careta impossível. E mais improvavel também.

Outra coisa que me chamou a atenção no filme foi o preconceito contra heterossexuais. Sim, isso mesmo. Parece até vingança gay.Há poucos, muito poucos, personagens heteros. Que eu tenha contado são 3 e uma referência (em imagens reais de arquivo): o dono da loja da frente, Dan White, o senador Briggs e Anita Bryant (que aparece em imagens de arquivo). Todos são preconceituosos, conservadores, usam argumentos teológicos contra gays, numa mistura de ignorantes, trogloditas e fundamentalistas cristãos. Não existem heterossexuais inteligentes, ou não preconceituosos no filme de Gus Van Sant. Ou são precenceituosos ou são enrustidos (acusação feita no filme por Milk a Dan White).

Ou seja, um filme tão preconceituoso com heterossexuais como os filmes preconceituosos feitos por heteros sobre gays. Lamentável.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Quando eu não sei...

falar de mim, dos meus sentimentos, pensamentos, reflexões, me socorro de Fernando Pessoa e seus heteronimos.

Há sempre uma poesia de Pessoa que se casa com meus momentos.

Como diria Milton Nascimento:

Há canções e há momentos
Eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
Que eu não posso controlar
Ela vai ao infinito
Ela amarra todos nós
E é um só sentimento
Na platéia e na voz
Há canções e há momentos
Em que a voz vem da raiz
Eu não sei se quando triste
Ou se quando sou feliz
Eu só sei que há momentos
Que se casa com canção
De fazer tal casamento
Vive a minha profissão

(Canções e Momentos - Milton Nascimento e Fernando Brant)

No momento, se casam com meus sentimentos tanto trechos quase inteiros d'O Poema do Menino Jesus, como a íntegra de Depus a Máscara. Sem falar em trechos de Tabacaria e do Poema em Linha Reta (meu favorito de Pessoa).

http://www.youtube.com/watch?v=HWsroSCFCtw

Poema do Menino Jesus

Alberto Caieiro

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
.............................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
......................................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.....................................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Depus a Máscara

Álvaro de Campos

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Minha Primeira Corrida de Verdade

Ontem eu participei, pela primeira vez, de uma corrida.

Rigorosamente devo reconhecer que não foi a primeira corrida, no final do ano passado eu participei da Shalon, como caminhante, e no início do ano da prova da Oral B, na região do Campo de Marte. Só que na prova da Oral B eu fiz como faço nos treinos: corri alternando com caminhada, 5 minutos de cada.

Na prova de ontem, abertura do circuito Corpore, realizada na Cidade Universitária em São Paulo, eu fui com a intenção de correr mesmo, correr o máximo que eu aguentasse. Havia 2 percursos, um de 12 Km e outro de 5 Km, participei neste último.

Fiquei super feliz pois consegui correr a maior parte do tempo. Dos 5 Km devo ter corrido entre 3,5 e 4 Km. Uma vitória e tanto para quem começou a treinar em julho do ano passado.

A minha preocupação não era com o tempo, mas em terminar a prova correndo e inteira. Consegui isso apesar do calor intenso - ontem foi segundo dia mais quente do ano (hoje estava pior), e logo pela manhã já estava um forno - relógios ao longo do percurso mostravam temperaturas de quase 30ºC às 8h 30 min.

Tou fiiiiiliiizzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz que só! E orgulhosa também.