quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Dos filmes que vi no carnaval
Este ano eu quis distância. E dei.
Tentei não assitir pela tv, coisa um tanto complicada, fiquei a maior parte do tempo em casa, ou fazendo caminhadas com uma amiga. E, principalmente, fui ao cinema.
Não vi todos os filmes que gostaria, para isso teria de ter ido ao cinema todos os dias, mas vi 3 filmes, dois dos quais eu queria muito ver. Os que faltam eu verei com tempo.
Os filmes que vi e os que queria ver são os seguintes: O Curioso Caso de Benjamin Button, Um Hotel Bom pra Cachorro, O Leitor, Dúvida, Milk - A Voz da Igualdade, e O Casamento de Rachel.
O Curioso Caso de Benjamin Button, Drama baseado no clássico romance homônimo escrito por F. Scott Fitzgerald nos anos de 1920, que conta a história de Benjamin Button, um homem que misteriosamente começa a rejuvenescer e passa a sofrer as bizarras consequências do fenômeno. Button, estranhamente, chega aos seus 80 e poucos anos - na New Orleans de 1918, quando a Primeira Guerra está chegando ao fim - e a partir disso começa a ficar mais jovem. Ainda que a cronologia do tempo segue normalmente e ele invada os anos do século 21.
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Elle Fanning, Elias Koteas, Julia Ormond, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Josh Stewart, Faune A. Chambers, Mahershalalhashbaz Ali, Spencer Daniels, Emma Degerstedt, Patrick Holland e Chandler Canterbury. Dirigido por David Fincher
Foi um filme que me tocou bastante. A história é inusitada, e a princípio, lembra um poema de Charles Chaplin. Fez pensar sobre tudo, de relacionamentos, escolhas, preconceitos, maturidade. Lindo filme.
O fato de Brad Pitt ser um homem lindo é só um detalhe. Cate Blanchett está maravilhosa como Daisy.
Um Hotel Bom Pra Cachorro. Baseado no romance infantil "Lost Treasures: Hotel for Dogs", escrito por Lois Duncan em 1971, a história fala sobre dois adolescentes órfãos que escondem vários cachorros num hotel abandonado. O problema é que aparece um assistente social (Don Cheadle) que vai cuidar da adoção das crianças, o que poderá separá-las dos animais.
Um filme ótimo pra quem gosta de cachorros e tem filhos, sobrinhos ou afilhados pequenos. Bem leve e divertido. Assisti por acaso. Fui para assistir "O Leitor" e não tinha mais ingressos, apenas para a sessão de 3 horas depois. Pra não ficar sem fazer nada, aproveitei e assiti o filme infantil em cartaz. Aproveitei e comprei ingresso antecipado para "O Leitor".
O Leitor. Um adolescente se apaixona por uma mulher mais velha e vive intenso romance. De uma hora para outra, ela some de sua vida. Cerca de oito anos depois, ele reencontra essa parte de seu passado ao participar de um polêmico julgamento de crimes cometidos pelos nazistas na segunda grande guerra. Dirigido por Stephen Daldry .
Elenco: Kate Winslet, Ralph Fiennes, Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, David Kross.
Um filme fantástico, impactante. Fazia tempo que não assistia a um filme em que as pessoas demoram a se levantar da cadeira quando acaba.
Normalmente não gosto de filmes com "dramas de tribunal". Hollywood exagera na dose, cria situações inusitadas, abusa dos "protestos", das testemunhas surpresa, do contato direto entre advogado e testemunhas, ou seja, foge totalmente da realidade em prol da dramaticidade. Incrivelmente o tribunal do filme estava bastante próximo da realidade.
O drama não estava no julgamento, mas, no que havia por trás. No drama de uma mulher com vergonha de algo que normalmente não deveria ser vergonhoso para ela. No amor de um homem que paralisa ao invés de agir.
Me fez repensar muitas coisas. Me fez retornar à faculdade. "Direito não é moral". "Direito se ocupa da legalidade. O que elas fizeram foi ilegal? Segundo a lei da época dos fatos foi ilegal?" "O que o senhor teria feito? " (pergunta de Hanna ao juiz); "As pessoas me perguntam o que aprendi em Auschwitz. Campos de extermínio não são universidades, não são escolas. Não fui levada para lá para aprender." (personagem de vítima do nazismo).
Teria Michel o direito de calar sabendo a verdade sobre Hanna?
Num sistema judiciário que se baseia na prova, e em que a confissão espontânea é considerada a "rainha das provas", como fica um julgamento em que a confissão é falsa, embora espontânea?
Se, e nosso sistema legal segue esse princípio, a pessoa deve ser julgada pelas leis da época em que ocorreram os fatos, julgar criminosos de guerra de acordo com leis posteriores aos fatos não é injusto, ilegal, abusivo e incoerente? Tais julgamentos são válidos, jurídica e moralmente?
Michel sabia que Hanna não poderia ter cometido o crime de que era acusada, mas, se cala. Vai ao encontro dela, mas, recua antes de encontra-la. Supostamente ele respeita sua vontade. Não quer que ela seja obrigada por ele a expor aquilo de que tem vergonha. Será isso realmente um respeito ao livre arbítrio de Hanna?
Um filme lindo. Tocante. Kate Winsley mereceu o Oscar. E David Kross deveria ter tido pelo menos uma indicação para ator coadjuvante, pelo papel de Michel Berg jovem. Estava magnifico.
Planejei inicialmente assistir "Dúvida" ainda esta semana. Mas não vou. Dois filmes com temática parecida, e ambos filmes fortes. Na mesma semana não dá. Acho que assistirei algo mais leve, talvez "O Casamento de Rachel".
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Algumas músicas que falam de carnaval
http://www.youtube.com/watch?v=rNw3dIdaWVg&feature=related
Noite dos Mascarados - Chico Buarque, Nara Leão e MPB-4
http://www.youtube.com/watch?v=n72vD9Wtt8Y&feature=related
Essa letra é atualmente o "about me" do meu perfil de orkut.
Olê, Olá
http://www.youtube.com/watch?v=i9mnqnHWbyo
Quando o Carnaval Chegar
http://www.youtube.com/watch?v=64v3mG1IFes
Foi Um Rio que Passou em Minha Vida
http://www.youtube.com/watch?v=dY1ZRgpv5Y4&feature=related
Argumento
http://www.youtube.com/watch?v=yhc_eUrRrRE
O Surdo
http://www.youtube.com/watch?v=FTG9vrNzmyM&feature=PlayList&p=2995C2197512D8C6&playnext=1&index=28
Retalhos de cetim
http://www.youtube.com/watch?v=Z1DVYcUK3PY
Marcha da quarta-feira de cinzas
http://www.youtube.com/watch?v=aW63eDQDcU0
Manhã de Carnaval
Manhã tão bonita manhã
De um dia feliz que chegou
O sol no céu surgiu
E em cada cor brilhou
Voltou o sonho, então, ao coração.
Depois deste dia feliz
Não sei se outro dia haverá
É nossa manhã, tão bela afinal
Manhã de Carnaval.
Canta o meu coração
A alegria chegou
Na manhã tão feliz
Deste amor...
http://www.youtube.com/watch?v=zMWtwcpYcV0&feature=related
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Só de Sacanagem - Elisa Lucinda
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
****
Esse texto da Elisa Lucinda ficou conhecido ao ser lido por Ana Carolina em seu show.
Sempre fico admirada pela sacanagem proposta: a honestidade de procedimento. Num país conhecido por dar "jeitinho" pra tudo, em que embora a maioria do povo seja honesta, é silenciosa tal honestidade, ao contrário de uma desonestidade barulhenta, que se ufana de si mesma quando deveria se envergonhar.
Já disseram que o mau prevalece porque os bons são tímidos. Verdade. Na hora em que nos orgulharmos de nossa honestidade, de nossa hombridade, do nosso procedimento correto. Quando deixarmos de votar em políticos que "roubam mas fazem", de exaltar aquele que "leva vantagem em tudo" por qualquer meio, quando bandido voltar a ser bandido e não for mais tratado como herói e exemplo de sucesso, então talvez a esperança imortal de que fala o texto renasça em meu coração, e eu acredite que o Brasil tem jeito.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Apenas 6 coisas
UM - ADORO a cor do meu cabelo, posso fazer luzes n vezes, reflexo, etc, mas, nunca me imagino com outra cor de cabelo que não a minha. Por isso nunca tingi. E não sei como vou fazer quando os cabelos ficarem com muitos fios brancos.
DOIS - FEIJÃO COM ARROZ - feijão, arroz, bife e salada, com romeu e julieta de sobremesa. Pode ter almoço melhor que isso? Só empata com macarronada caseira.
TRÊS - ler, ler, ler - passatempo, trabalho, estudo, vida, arte, riso e pranto. Adoro ler.
QUATRO - Feijão no prato,rs. - café, pão e manteiga. Na verdade estava pensando numa mesa de café, com bolos caseiros, pães, café, leite, e tudo mais. Tem coisa melhor que uma mesa dessas pra se passar uma tarde em volta dela batendo papo? Um dos meus programas favoritos.
CINCO - Flores e pássaros. Duas das criaturas mais lindas de Deus. Só que os pássaros tem de estar em liberdade e as flores serem várias e coloridas. Agora estou ouvindo os pássaros que moram no jardim de um prédio aqui em frente. Fazem uma barulheira maravilhosa e diferente no meio do desagradável barulho do trânsito paulistano.
SEIS - Ai meu pescoço! - uma frase recorrente na minha vida. Fico nervosa, tensa, e "ai meu pescoço!" porque ele vira pedra. Já sou até alérgica a alguns relaxantes musculares :(
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Alguém me explica?
Andei procurando no google, que me remeteu à wikipedia, sobre a origem dessa data, e vi que São Valentim é para a Igreja Católica o santo protetor dos casamentos.
Copiando, ipsis literis, o que está na Wikipedia:
"São Valentim, (ou Valentinus em latim), é um santo católico que dá nome ao Dia dos Namorados em
muitos países, onde celebram o Dia de São Valentim. O nome refere-se a pelo
menos três santos martirizados na Roma antiga.
Durante o
governo do imperador Cláudio
II, este proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o
objectivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio
acreditava que os jovens se não tivessem família, alistariam-se com maior
facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar
casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as
cerimónias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi
preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e
bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que
jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega: Asterias, filha do carcereiro
a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram
apaixonando-se e milagrosamente a jovem recuperou
a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte
assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi
decapitado em 14 de Fevereiro de 270."
Aqui no Brasil, por iniciativa do comércio da cidade de São Paulo, passou-se a comemorar o dia dos namorados na véspera do dia de Santo Antonio, como forma de incentivar a troca de presentes entre os apaixonados.
Afinal de contas, o protetor dos namorados e dos que querem casar é São Valentim ou Santo Antonio? Tem conflito de competência até no céu? Cruzes!
******
De acordo com a informação que colhi em várias fontes ontem, além de ser dia dos namorados em boa parte do mundo, foi também o termo inicial da "Era de Aquário".
Alguém aí sabe me explicar o que seja a tão famosa "Era de Aquário"? Todo mundo fala nela, mas, eu gostaria de uma explicação para o que isso significa. Há algum astrólogo que leia este humilde blog?
Por enquanto fiquem com a canção do filme "Hair" sobre isso. Aquarius:
http://www.youtube.com/watch?v=w3I1y3jHgxA
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928