Conviva – é o imperativo afirmativo do verbo conviver. Segundo os dicionários conviver significa viver em conjunto, em intimidade. No Brasil é o nome de um movimento para que ciclistas e automóveis dividam o espaço das ruas em harmonia. Seu símbolo é esse aí em cima. Aliás, ruas, praças, avenidas, são lugares de convivência por excelência.
Nesta última semana, sexta-feira acordei com uma péssima notícia no Bom Dia São Paulo: um acidente entre um ônibus e um carro em Guarulhos, tão grave que causou a morte de duas pessoas, e ferimentos em outras 6, havia interditado uma importante avenida, e causado a queda de energia elétrica em toda a região, pois o ônibus havia batido num poste causando a queda de fios.
O mesmo dia, a mesma manhã, e surge a notícia de uma ciclista atropelada por um ônibus na Av. Paulista, próximo ao local onde 3 anos e meio atrás outra ciclista havia morrido em situação semelhante.
O último fato desencadeou uma série de manifestações ao longo do dia, e no dia seguinte – ontem. Trouxe a tona também o incrível problema da convivência entre os diversos atores do trânsito na cidade de São Paulo.
Historicamente o Brasil sempre deu preferência ao trânsito de automóveis, mesmo que toda a legislação de trânsito brasileira diga que a preferência é dos pedestres e ciclistas. Entretanto, por questões culturais, o brasileiro que tem carro acha que a rua é feita para automóveis. O que não é verdade.
A rua é um espaço público, e sua circulação obedece a regras que dizem que pessoas que circulam por ela sem estarem em veículos automotores têm preferência. A primeira preferência é do pedestre, a segunda do ciclista. O artigo 58 do Código de Trânsito Brasileiro fala o seguinte sobre a circulação de bicicletas: “Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.” (grifo e sublinhado meus)
Segundo a regra de hermenêutica segundo a qual onde a lei não distingue ao intérprete não cabe distinguir, a bicicleta tem preferência sobre TODOS OS VEÍCULOS AUTOMOTORES, sejam eles carros, motos, ônibus, van, caminhões, e quaisquer outros. Ela só não tem preferência sobre o pedestre.
Porém, o motorista brasileiro não aprende assim, não age assim, e dificulta sobremodo a convivência no trânsito (sobremodo? Cáspita, isso tá parecendo psicografia da Joanna de Ângelis). Dificulta não só a convivência com ciclistas, dificulta a convivência de automóveis com motocicletas, com ônibus, com veículos de entrega, com caminhões, com pedestres.
Na mesma sexta-feira 2 de março de 2012 ouvi, num cruzamento, ao seguinte diálogo entre duas moças que estavam ao meu lado esperando o farol fechar para atravessar a rua: Parece que o pessoal não sabe que a preferência é do pedestre. As duas caíram na gargalhada, e uma delas completou: “sei que a regra é essa mas quando estou dirigindo detesto dar preferência a pedestre”. E, aí eu cheguei onde queria – não me matem, às vezes preciso dar mil voltas pra chegar onde quero (já ia eu escrever “faço mil circunlóquios”, arre!).
Motoristas são também pedestres. A maior parte dos ciclistas que conheço só anda de bicicleta nos fins de semana, dirige carro durante a semana. Por que então, se todo motorista é também pedestre e potencialmente um ciclista, quando estão dirigindo automóveis ou outros veículos motorizados desrespeitam tanto aos que estão a pé e de bicicleta?
Qual o motivo de um motorista achar que a rua é dele e só dele, agindo com total desrespeito para com pedestres e ciclistas?
Pela legislação o automóvel de passeio, nome próprio dos nossos carros, é o veículo que não tem preferência sobre nenhum outro, já que o pedestre tem preferência absoluta, seguido do ciclista, do motociclista, dos veículos de transporte coletivo, dos veículos de carga e só depois vem o automóvel. Ah! Sobre todos eles, inclusive sobre os pedestres, têm preferência os veículos de emergência: ambulâncias, resgate, carros do corpo de bombeiros, viaturas policiais, quando em situação de emergência, e com os sinalizadores ligados.
Seria um complexo de inferioridade enrustido em todo motorista, ou falta de educação para o trânsito mesmo?
Acho que um pouco dos dois. Ontem debatendo o assunto com amigos no facebook, um deles, ciclista que também tem carro, defendeu que a legislação deve ser aplicada com rigor no caso de desrespeito a pedestres e ciclistas, e, ao mesmo tempo, relatou alguns casos em que mesmo agentes da CET e da PM Trânsito demonstraram desconhecer a legislação a respeito da circulação de bicicletas – um deles chegou a sugerir ao meu amigo que pedale pela calçada, o que não é permitido pelo CTB.
Um dia antes do acidente um amigo me sugeriu que eu circule com a bicicleta pela contra-mão como forma de proteção, para ver os carros, o que também é proibido pelo CTB – conforme o artigo que já citei aqui.
Mesmo eu, que pedalo desde criança, tenho receio de pedalar pelas ruas de São Paulo durante a semana, inclusive porque como a maioria dos ciclistas, eu não sei sinalizar quando estou de bicicleta. Como assim sinalizar? Simples, todo ciclista deve sinalizar suas intenções, seja de fazer conversões, seja de mudança de faixa, com os braços e mãos, conforme uma convenção internacional. Carros, motos, e outros veículos automotores dispõe de pisca-pisca, mas bicicletas não tem esse equipamento, então os sinais são feitos com as mãos e braços.
Outra coisa que noto, é o grande número de ciclistas que dirigem suas bicicletas sem o uso do capacete e outros equipamentos de segurança.
Por isso defendo a idéia de que a falta de educação no trânsito é a maior causa de acidentes que existem. É pela educação que se conhecem os direitos e os deveres de cada um. Só pela educação se pode mudar a mentalidade da imensa maioria dos motoristas de que eles são os donos das ruas, e não os demais.
Só pela educação um motorista de ônibus deixará de retrucar, como vi em um vídeo no blog de outra ciclista, que “quem morrem são vocês, a gente só vai na delegacia fazer B. O.”. (esse aí deveria ter perdido a carta na hora, um irresponsável desses não pode conduzir veículo algum).
Um aspecto positivo de toda a campanha que vem sendo feita em São Paulo pela convivência pacífica entre pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas (de automóveis, ônibus e caminhões) é que houve um visível aumento no número de pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte, enquanto o número de acidentes fatais envolvendo ciclistas diminuiu nos últimos dois anos, em torno de 20%. É um dado a ser comemorado, especialmente se lembrarmos que o número de acidentes fatais envolvendo automóveis e ônibus aumentou. O que me leva a perguntar aos motoristas: o que é mesmo mais perigoso automóvel ou bicicleta? Os números dizem que é automóvel.
Antes de escrever esse texto me ocorreram duas coisas: a primeira foi que me lembrei de um arquiteto que gosto muito, João Artacho Jurado, já falecido, e com fama de fazer prédios bregas – que eu acho lindos, coloridos e alto astral – e que foi o primeiro a fazer prédios com muitas áreas de convivência para os moradores. Isso nos anos 50, quando ainda não havia surgido a idéia de “condomínios clube”. Os prédios de Jurado tinham ótimos apartamentos, com piscinas, terraços de convivência, salões, bares. Ele dizia que não era por morarem em prédios que as pessoas deveriam se isolar, perder o contato com seus vizinhos.
A segunda coisa que me lembrei foi de uma frase, de autoria desconhecida, que tenho num marcador de páginas artesanal, com a foto de dois palhaços abraçados, e que achei hoje, perdido no meio de um livro: A beleza do mundo reside na insuspeitada alegria de conviver.
Termino este texto sugerindo a todos que exercitemos no trânsito, como em casa, a melhor convivência possível. Convivência, de conviver, viver com. Numa cidade vivemos todos juntos, no mesmo espaço urbano. Convivamos. Conviva.



